Como psicóloga que caminha com profissão e alma, sei que a prática clínica traz maravilhas — e traz inquietações. A escuta profunda, o contato com a dor, o vínculo com quem sofre… tudo isso exige de nós não só técnica, mas presença, clareza interna e cuidado com nosso próprio ser. Por isso reafirmo: você, psicóloga, também merece ocupar a cadeira de paciente e a cadeira de supervisionada.
Existe uma ideia silenciosa, que muitas vezes ronda o imaginário coletivo — e até entre nós, psicólogos — de que “quem ajuda, dá conta”. De que por termos formação, repertório teórico e prática clínica, já sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Mas quem vive a clínica de verdade sabe: não há saúde emocional que se sustente sozinha dentro desse ofício.
Ser psicólogo é estar em contato com a dor, com o trauma, com a história e a vulnerabilidade humana — todos os dias. É acolher o outro em estados profundos, é escutar o que muitas vezes ninguém nunca escutou, é oferecer uma presença que cura. Mas para conseguir ser essa presença, é preciso também ter onde repousar.
A terapia pessoal e a supervisão não são luxos nem exigências formais do conselho. São pilares de sustentação da nossa prática. São os lugares onde a gente se reencontra, se reorganiza e se lembra de por que escolheu estar do lado de cá da cadeira.
Por que a supervisão é tão essencial
A supervisão é o espaço que nos devolve o olhar técnico e ético. É onde a teoria encontra a vida real da clínica. Onde a gente se autoriza a dizer: “não sei o que fazer aqui”, “esse caso me atravessou”, “me senti insegura”.
É um espaço de aprendizado contínuo, mas também de amparo. Um lembrete de que não estamos sozinhos — e nem precisamos estar. Supervisão é humildade em ação. É reconhecer que o saber se constrói no encontro, na troca, na escuta entre profissionais que compartilham a mesma missão: cuidar com responsabilidade e humanidade.
E mais do que discutir técnicas, a supervisão nos ajuda a sustentar a postura clínica — o olhar compassivo, os limites éticos, a capacidade de conter, de interpretar e de suportar o que emerge no vínculo terapêutico.
Mesmo sendo você a profissional que acolhe, é preciso ter quem te acolha. A supervisão é esse espaço de reflexão, crescimento e amparo. Já há evidências científicas que demonstram: a supervisão clínica melhora a autoconsciência e a autoeficácia — isto é, nossa confiança e clareza na prática — para psicoterapeutas e conselheiras.
Em uma revisão de 2023 sobre supervisão, concluiu-se que, embora a pesquisa ainda seja limitada, “a supervisão parece ter impacto positivo sobre habilidades, autoconsciência e autoeficácia dos supervisionados”. Mais: a supervisão não serve apenas para o “como fazer”, mas para o “quem sou” nesse fazer — e para o “como me sustento” nesse caminho. Permite que identifiquemos padrões, nossos limites, nossas reações perante o outro e evitemos que o trabalho se torne um peso invisível ou invisibilizado. Uma página bem aponta: “a supervisão permite reflexão crítica sobre casos clínicos… e oferece suporte emocional” para o terapeuta.
Por que a terapia pessoal também importa
Enquanto psicólogas, falamos tanto sobre vulnerabilidade, cura, ligação e transformação… mas muitas vezes esquecemos que também somos humanas que precisam desse olhar voltado para dentro. Fazer terapia pessoal nos permite vivenciar aquilo que oferecemos — autoconhecimento, acolhimento, integrar nossa história — e evita que sejamos “caixinhas de técnica” sem solo firme.
Pesquisa mostra que o cuidado com si (self-care) associado à supervisão reduz risco de burnout, contribui para maior bem-estar e previne sobrecarga emocional no clínico. Além disso, quando a terapeuta se conhece, pode usar com mais clareza e autenticidade o “uso de si” na terapia, ou seja, como seu ser se faz instrumento terapêutico.
Estar em terapia, enquanto psicólogo, é um exercício constante de humildade e coerência. É o espaço em que podemos tirar o jaleco simbólico e sermos apenas humanos — com as nossas dores, contradições, medos e limites.
A terapia nos ensina, na pele, aquilo que ensinamos na teoria: que autoconhecimento não é um destino, é um caminho. Que o cuidado com o outro nasce do cuidado com a gente. E que o afeto mais transformador é aquele que primeiro aprendemos a dirigir a nós mesmos.
É na terapia que revisitamos nossos padrões, que identificamos as histórias que ainda nos atravessam, que percebemos quando algo do paciente toca algo nosso. Porque sim, acontece. E se não olhamos para isso, corremos o risco de transformar o consultório num espelho embaçado, onde o outro deixa de ser visto com nitidez.
O psicólogo também precisa ser cuidado
Cuidar da mente alheia sem cuidar da própria é como tentar acender uma vela já apagada.
O desgaste emocional, a sobrecarga afetiva e a solidão do setting são reais. E não é fraqueza reconhecê-los — é maturidade.
Quando o psicólogo se permite ser cuidado, ele expande sua presença clínica. Fica mais disponível, mais sensível, mais enraizado na escuta.
Porque um profissional que se conhece, se regula e se sustenta é também aquele que transmite segurança e inspira crescimento no paciente.
No fundo, tudo se resume a coerência
Não há como convidar o outro a se cuidar, se não fazemos o mesmo. Não há como ensinar sobre autocompaixão, sem exercê-la na própria vida.
Nossa prática exige presença real — e presença real só nasce de quem tem coragem de se olhar, de se permitir aprender e de continuar se transformando.
Terapia e supervisão não são apenas recursos, são compromissos com o ofício, com os pacientes e com a nossa própria humanidade.
E talvez essa seja a beleza de ser psicólogo: nunca deixamos de ser também pacientes, aprendizes, e seres em construção.
Reflexão para você
Você que valoriza acolhimento, amor, cuidado, sabe: não se trata apenas de técnica, trata-se de presença.
Pergunte-se: Qual parte de mim ainda não foi acolhida, mas aparece em meus pacientes?
Quais reações minhas surgem mais forte no consultório e que talvez me digam algo sobre mim?
Como está meu “sistema de apoio” profissional — supervisão regular, rede de colegas, troca reflexiva?
Como está meu cuidado pessoal — não só dieta, exercícios, rotina (que você tem lindamente), mas o cuidado da alma, das emoções, dos limites da clínica?
Quando permitimos que nossa vulnerabilidade seja terreno fértil e não obstáculo, favorecemos não só nossa integridade, mas a qualidade do cuidado que oferecemos. E isso, é um legado de amor, sabedoria e profissionalismo.
Com carinho, Éllen 💛
Referências
Effect of clinical supervision on self-awareness and self-efficacy of psychotherapists: a systematic review. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35913852/ PubMed
The impact of clinical supervision on counsellors and therapists, their practice and their clients. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK74184/ NCBI
Self-care in prevention of burnout amongst counselling professionals. https://doi.org/10.1002/capr.12837 Ovid
The soul of therapy: the therapist’s use of self in the therapeutic relationship. https://doi.org/10.1007/s10591-021-09614-5 SpringerLink
Exploring self-care within the context of CBT and supervision. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38295424/ PubMed