Nossas emoções existem por uma razão e devemos escutá-las. Mas entendo que às vezes elas se tornam insuportáveis e lidar com elas é uma tarefa difícil... Talvez não tenha aprendido como se aliviar, ou tenha sido ensinado a esconder as emoções, e então desenvolve uma das estratégias mais recorrentes para “anestesiar” as emoções: A automutilação (também chamada de cutting, ato de se cortar).
A automutilação se dá por cortes provocados pela própria pessoa, não necessariamente com o objetivo do suicídio, mas sim, na maioria das vezes, como uma tentativa de aliviar a intensidade emocional. Percebo em consultório, uma demanda significativa de comportamentos de automutilação, principalmente em adolescentes, que geralmente aprendem com os colegas essa “nova maneira” de se tranquilizar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 20% da população de jovens têm comportamentos de automutilação. Alguns transtornos envolvem o cutting, como: Depressão, Bipolaridade, Ansiedade, Transtorno de Personalidade Borderline, Anorexia, Bulimia, entre outros.
O que me chama atenção, é que em 100% dos casos (que atendi em consultório), por mais que o alívio após o corte apareça, a culpa em torno da cicatriz depois duplica os sentimentos que o próprio paciente sentia antes de se cortar, fazendo assim um círculo vicioso de culpa e dor. Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, apenas quem sente sabe o que está sentindo, e entendo que alguns sentimentos são intoleráveis demais para ter de lidar com ele. Mas posso dizer que apesar do alivio instantâneo que alguém possa sentir enquanto se corta, será apenas passageiro, pois o sentimento continuará lá aumentando e aumentando....
Algo importante a ser entendido pela família e amigos, é que o comportamento de automutilar-se não serve “para chamar atenção” apenas, representa uma estratégia do sujeito “anestesiar” suas próprias emoções aliviando fisicamente o sofrimento emocional. O que aquele que se corta precisa entender é que esta não é a única maneira de aliviar seus sentimentos dolorosos e que existem meios mais saudáveis para se sentir bem. Desta maneira conseguimos quebrar o ciclo da dor e culpa, e impulsioná-lo a ter comportamentos mais saudáveis.
As famílias desenvolvem papel importante nestas questões e devem estar atentas aos sinais emocionais dos filhos, podendo prevenir conflitos que precisem ser silenciados. A comunicação na família é fundamental para que o jovem se sinta seguro para se expressar, valorizado emocionalmente e confiante para buscar alternativas.
Se você conhece alguém que pratica automutilação, não julgue, mostre-se disponível para escutar e ofereça cuidado. Caso seja você sofrendo deste comportamento, eu te entendo, mas existem pessoas e lugares especializados e prontos para te ajudar, como grupos de apoio (neuróticos anônimos, grupos no facebook), o CVV (telefone 141 gratuito), psiquiatras e principalmente psicólogos como eu, disponíveis para te escutar e ajudar a encontrar um caminho melhor juntos.
Com carinho, Éllen 💛